O homem, desde seus tempos primordiais, buscou nas montanhas e colinas a sua segurança e alimento. Mas logo a curiosidade também o motivou a subir mais. Não se sabe ao certo quando a técnica do rappel surgiu efetivamente, mas acredita-se que tenha sido “inventada” em 1879 por Jean Charlet-Stranton e seus companheiros Prosper Payot e Frederic Folliguet durante a conquista do Petit Dru, paredão de rocha que lembra um obelisco, coberto de gelo e neve, perto de Chamonix. Ele descreve os momentos do nascimento do Rappel da seguinte forma, descendo depois da conquista do cume:
“Não era cômodo para os dois primeiros e difícil para o último (…) eu enrolava a minha corda em volta de uma saliência da montanha, e por outro lado, eu a tinha, vigorosamente, fechada em minha mão, pois se ela viesse a escapar de um lado ela seria retida do outro. Enfim, o segundo, uma vez descido, era necessário que o último fizesse sozinho a descida perigosa. Assim eu procedia:
Se uma saliência me permitia eu passava a corda dupla em sua volta, eu lançava a meus dois companheiros abaixo as duas pontas que eles deviam ter nas mãos antes que eu começasse a descer. Quando eu era avisado que eles tinham as pontas da corda em mãos eu começava a deslizar suavemente ao longo da rocha segurando firmemente a corda nas duas mãos. Eu era recebido pelos meus dois companheiros que deviam me avisar que eu havia chegado a eles, pois nem sempre era possível ver o que havia debaixo de mim. Descendo de costas eu me ocupava unicamente em segurar solidamente a corda com minhas duas mãos, sem ver onde eu iria abordar.
Quando chegava perto de meus companheiros eu puxava fortemente a corda por uma de suas pontas e assim a trazia de volta para mim. Em duas ocasiões nós tivemos que renunciar a tentativa de recuperá-la, ela estava presa em fendas nas quais a corda penetrou muito profundamente. Nestes dois lugares, pude estimar, deixamos 23m de corda (…).” (tradução livre)
Imaginem a descida sendo feita em uma corda de fibra natural, molhada depois do contato com o gelo e raspando pelas rochas e sem freios mecânicos… assim é feito o desenvolvimento de técnicas, com coragem e experimentação (mesmo sendo um absurdo em termos de conhecimentos atuais) pagando, obviamente, às vezes, com a própria vida.
Muitos, antes de nós, pagaram este preço para chegarmos onde hoje estamos, portanto o mínimo de consideração que podemos ter é aproveitar estes conhecimentos e não repetirmos os mesmos erros. Rappel é, na verdade, a técnica de recuperar a corda para que ela possa ser novamente utilizada no processo de descer de uma escalada.
No final do século, alpinistas já utilizavam o rappel em suas escaladas. Porém, foi com os espeleólogos no início do século XX, que a técnica passou realmente a ser mais difundida. Com o auxílio de cordas, esses exploradores conseguiram chegar a locais que antes não podiam ter acesso. O desenvolvimento do rappel começou a partir daí.
Já no Brasil, acredita-se que o rappel tenha surgido há 15 anos com os primeiros espeleólogos que iniciaram a pesquisa e estudo das cavernas no país. Mas, a conquista do Dedo de Deus, na região de Teresópolis (RJ), foi o marco da escalada e conseqüentemente do rapel. Hoje o esporte é muito difundido e já conta com inúmeros roteiros além de instrutores especializados.
À medida que as explorações e técnicas foram se popularizando, o rappel foi se tornando uma forma de atividade praticada nos finais de semana, surgindo assim novas modalidades, mas até hoje é usado profissionalmente nas forças armadas para resgates, ações táticas e explorações, por ser a forma mais rápida e ágil de descer algum obstáculo.
O gosto pelo esforço, a vontade de desafiar a natureza e as leis da física transformaram a escalada não mais em um meio, mas em um fim, em si mesmo. Hoje, devido à multiplicação das escolas de escalada, suas filosofias e seus adeptos, ela se pratica de diferentes formas, tais como a escalada livre e a escalada esportiva.
Seja como técnica, esporte, ou qualquer outra atividade, bom rappel para todos! Estar em contato com a natureza, desenvolver o espírito de coletividade, superar desafios e fazer amigos é o principal objetivo desta prática. O NEREA recomenda!
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